“DESCONSTRUÇÕES” DA CULTURA:

IRACEMA E A CENA MULTICULTURAL

 

Evando Nascimento – Univ. Federal de Juiz de Fora

 

Uma confidência, para terminar. Talvez apenas quisesse confiar ou confirmar meu gosto (provavelmente incondicional) pela literatura, mais precisamente pela escrita literária. [...] No fundo, passo sem a literatura e, de fato, com muita facilidade. [...] Mas se, sem gostar da literatura em geral e por si mesma, gosto de algo nela que não se reduz de modo algum a uma qualidade estética, a uma fonte de gozo formal, isso estaria em lugar do segredo. Em lugar de um segredo absoluto. Ali estaria a paixão. Não existe paixão sem segredo, este segredo, mas nada de segredo sem paixão. Em lugar do segredo: ali onde entretanto tudo está dito e onde o resto nada é - além do resto, nem mesmo literatura.

 

Derrida, Paixões, “Ensaio sobre o nome”

 

O que direi em seguida vai dispor um dado inevitavelmente autobiográfico. Desculpem, desde logo, referir numa apresentação pública assuntos que me foram particulares. É um texto escrito sobretudo de memória. A memória das leituras que realizei, entre 93 e 95, com os alunos da Universidade Stendhal de Grenoble, em sua grande maioria filhos de imigrantes portugueses, tentando aperfeiçoar o conhecimento da língua de seus pais. A língua que não é mais a deles. Eles que tampouco se sentem inteiramente à vontade no território lingüístico, geográfico e cultural da França, sitiados num entrelugar além do Tejo e aquém do Isère ou do Drac, respetivamente rios lusos e grenoblenses.

As leituras que fiz com esses alunos franco-lusos levaram a duas rededescobertas. Redescoberta primeira, a de Iracema, de Alencar. Em território estrangeiro, reencontrava esse texto fundamental e fundante de uma certa nacionalidade literária. Redescobria ali o traço encantatório, hiperlírico de uma fábula tropical, do mito fundador de uma nação, vergonha ou não porém nação. Cronicamente viável e inviável. A segunda redescoberta, como se vê, era a do próprio país. Via ficção poética alencarina, reaprendia o caminho de casa, encontrava o atalho para pegar o primeiro transporte e aportar seguramente nas terras onde nasci, descendente de quem sou, improvável tribo camacã.

Conhecemos bem o final da epopéia de Martim e Iracema, com o triunfo do macho branco no comando e a morte da índia nativa, lábios de mel em flor. Uma dupla conquista, da mulher e da terra, uma como instrumento da outra. Cito logo, para refrescar nossa memória de banco escolar, o final do texto, embora vá me deter em outras paragens:

 

A mairi que Martim erguera à margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. Germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o maracá” (ALENCAR, s. d., p. 140).

 

Esse trecho fornece um bom exemplo da língua de Alencar. Temos o idioma alencarino como tentativa de hibridização de dois outros: a fala nativa e a flor do Lácio, última, implantada em terras americanas. Um português tropical cruzando com o idioma local e engendrando um híbrido, uma utopia de florescência dessa outra América, abaixo da linha do Equador.

No território da selva assinada “Alencar”, do prefácio ao posfácio, passando pelas notas, temos o nome do Autor, concorrendo com o Narrador e enfeixando fábula, numa sutil moral já prescrita na frase citada e reforçada pelo dizer bíblico, “Tudo passa sobre a terra” (ALENCAR, s. d., 140). Acrescentaria: tudo passa, sobretudo os nomes.

Aos pouquinhos, abrem-se caminhos para o leitor na selvagem selva do texto, logo nos “Verdes mares, bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas fondes da carnaúba” (ALENCAR, s. d., p. 13). Certos acontecimentos sinalizam conflitos culturais que marcam a atualidade do texto, sua imortalidade que reside em desenterrar os mortos dos combates ocidentais. Onde a memória falha, é preciso refrescá-la, trazendo à tona da terra o que a terra oculta, seus espectros, seu segredo.

Uma vez feito esse enquadramento geral, proponho a leitura de uma cena no livro de Iracema, mais exatamente no capítulo XXIV. Um capítulo que descreve e é em si mesmo um rito, um pseudo-rito de passagem para entronizar o colonizador como figura nativa. Um capítulo, portanto, performativo, que realiza, performa aquilo de que fala. O ritual do coatiabo em que Martim deve ter seu corpo pintado com as cores do guerreiro, como que se convertendo num pitiguara. Falar, escrever sobre esse capítulo foi uma promessa feita aos alunos grenoblenses. Era preciso tratar das questões culturais, até certo ponto “desconstrutíveis”, que estão no falseamento da passagem de uma a outra cultura. Como toda promessa, a ameaça de não dar certo, de simplesmente não acontecer, do fracasso, estava ali embutida, antes como agora. Vamos a ela, à prometida esperança de desvelar o que acontece no instante em que o branco europeu se faz passar por índio, depois de ter seduzido e desposado a “indiana”.

Tudo se passa, no referido capítulo XXIV, em superfície, como se fosse a verdade, mas não a verdade ela mesma, que aí se apresenta. A verdade é uma propriedadde do sujeito branco, colonizador, portador do falo, da única língua aceitável, a da arma de fogo e a da fonte européia. De fato, uma dupla fonte: a arma e a lusa língua, disso somos o resultado, a esperança, a promessa. A semente e a floração, boa ou má, pura ou espúria.

Tudo se passa, repito, como se Martim soubesse desde o início que sua conversão é impossível. Raros são os casos de conversão européia à fé e à cultura autóctone. Assinalam os livros de História que o movimento é sempre no sentido contrário: persecução, captura, sevícia e conversão forçada do outro, que era até então supostamente uma página em branco, a ser preenchida com os traços escritos ao fogo da fé, da lei e do governo europeu.

A posição de Martim se vê logo então falseada: é seu corpo branco que será marcado e re-marcado pelas vivas cores nativas, pois como explica o narrador, “Foi costume da raça, filha de Tupã, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação” (ALENCAR, s. d., p. 103). Pintar o corpo (como indica o verbo coatiá) seria para o guerreiro branco assumir as cores da nação do outro. Ainda que a tez não corresponda à nativa, é pelas tintas que se fará a adesão: o que a pele não confirma, uma sobrepele ou verniz deve sacralizar, o branco vira índio. Eis os sinais bastante superficiais de adoção.

O devir-indígena de Martim começara mesmo com o desposar Iracema. Mas já no acasalamento branco-índia uma traição se fez à cultura indígena. Foi preciso que Iracema ferisse o código de honra de sua tribo para se tornar esposa de Martim. Ao dormir com o guerreiro branco Iracema trai o segredo da jurema, preservado até então com sua virgindade. O casamento que seria um primeiro rito de iniciação na cultura do outro se tornou o ato de quebra do vínculo da nativa com sua tribo, nação ou pátria - termos que repassarei mais adiante. O suposto matrimônio índio do branco foi o início do abastardamento da indígena, como ela mesma diz, “Araquém já não tem filha” (ALENCAR, s. d., p. 77).

Casar significou para Iracema a ruptura com a genealogia patrilinear, a queda na bastardia, sem que um outro vínculo, mesmo o cristão, a salvasse da perda. Essa corrupção do génos somente se confirmará ao longo da narrativa poética. E o génos, já em grego, é sempre dúplice: ele é tanto racial, sangüíneo, quanto cultural, inventado. O génos, a origem, a raça, o povo, refere igualmente o solo, o sangue, a família e os hábitos, a linhagem, a índole, a estirpe. A carne e o lugar da cultura (BHABHA, 1998). A natureza e a civilização de que se participa. Minha hipótese (com Derrida) seria de que nunca se pertence de todo a um génos, mas se participa até certo ponto de uma genealogia, natural ou civilizada, biológica ou moral. Todos, humanos ou não, participam de grupos, tribos, nações, pátrias, assembléias, covis, alcatéias, maltas, manadas, associações, sociedades, times, conjuntos, batalhões, grêmios, clãs, partidos, facções, bandeiras, seitas, famílias. Et coetera.

Martim participa fundamentalmente da genealogia branca, ocidental. Ainda que o dogma da pureza no Ocidente possa ser de mil modos questionado, há um certo ideal de cultura que nos move segundo essa crença. Iracema fazia parte, até certa altura, de sua tribo, com a qual rompeu ao quebrar seu segredo, dela e da tribo. Com isso, ao se entregar, Iracema voou para a América, seguindo os versos de Chico Buarque. Iracema funciona, pois, tal seu irmão Caubi, como piguara, o senhor dos caminhos, o guia condutor do inimigo no território dos seus, abrindo passagem para a fundação da América.

O fruto do casamento se chamará Moacyr, que quer dizer filho do sofrimento. Uma dupla dor. Primeiro Iracema perde seu pai e seu clã. Em seguida, ela perderá o marido para Poti, filho da tribo inimiga: os dois se associarão cada vez mais em combate, abandonando a jovem esposa em casa. É preciso sublinhar essa união falocêntrica, pano de fundo mas que chegará ao primeiro plano antes do fim da história: “O estrangeiro, tendo adotado a pátria da esposa e do amigo devia passar por aquela cerimônia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupã” (ALENCAR, s. d., p. 103). Resultado de suposta adoção, o novo génos de Martim implica a formação de um duplo laço, o do amor e o da amizade, com prevalência final desta sobre aquele. A philía triunfará sobre éros, ou antes, será a própria amizade um outro tipo de éros.

Vale lembrar que a pseudo-iniciação é uma cena de escrita, no sentido derridiano do termo. É como inscrição na pele que o narrador descreve o rito. Falando da evolução da pintura, ele profere: “Depois variaram as cores e muitos guerreiros costumavam escrever os emblemas de seus feitos” (ALENCAR, s. d., p. 103). Tal como diz Derrida a propósito dos Nambikwaras (que tinham sido descritos por Claude Lévi-Strauss como povos “sem escrita”, num etnocentrismo flagrante do etnólogo), a pintura indígena para Alencar é uma escrita. Evidentemente não se trata da escrita alfabética, mas de uma outra, feita de traços, rastros ou vestígios de combates e afetos. Martim se deixa “alfabetizar” em língua indígena (ele que já a falava com perfeição), franqueando seu próprio corpo para o regozijo da mulher e do amigo. O corpo vira a pedra, a lousa, a tela, o suporte - o subjétil, diria Artaud, onde cada um traça com deleite a inscrição que deseja.

Resgato alguns fragmentos dessa que é uma das cenas mais vivas, em cores, da literatura dita brasileira. Assim começa o Autor-Narrador:

 

Iracema preparou as tintas. O chefe [Poti], embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os riscos vermelhos e pretos que ornavam a grande nação pitiguara. Depois pintou na fronte uma flecha e disse:

- Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n’alma dos povos (ALENCAR, s. d., p. 103).

 

Poti continuará com seus gestos de iniciação do amigo branco, e ao fim, coroando tudo, interfere Iracema, com galhardia:

 

Iracema tomou a rama da pena e pintou uma abelha sobre folhas de árvores. Sua voz ressoou entre sorrisos:

- Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do mais valente guerreiro (ALENCAR, s. d., p. 103-104).

 

Faltava apenas o nome - pseudo, claro: ”um nome na língua de sua nação”, sugere Poti, falando de Martim já como pertencente a sua nova nação, pitiguara. Cabe ao próprio Martim desvendar o segredo bastante superficial, adivinhando o mistério de seu nome e exclamando: “- O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o pôs tua mão”, e Iracema completa o “batismo”: “- Coatiabo!” Martim, por sua vez, arremata: “Tu o disseste: eu sou o guerreiro pintado: o guerreiro da esposa e do amigo” (ALENCAR, s. d., p. 104). A cifra é claríssima nos lábios do branco Martim, o portador privilegiado da verdade, de seu nome, origem, raça, patrimônio e história. Da História. Um guerreiro índio pintado é um simulacro de guerreiro, não o verdadeiro mas o inventado com as cores da amizade e do amor. Esses sentimentos são inteiramente maqueados, apostos sobre a pele como uma pintura sem a qual não se chega ao objetivo.

(Abro parênteses para levantar a seguinte questão: e poderia ser de outro modo, participar de uma cultura não é sempre uma questão de pele, um segredo superficial que se pode mais ou menos dissimular mas que sempre retorna? Em contrapartida, porque nunca se pertence de todo a esse ou àquele ajuntamento, família, tribo ou nação, será sempre possível a qualquer indivíduo adotar as cores e a pele do outro. Todo o problema está no que acontece com essa troca de valores, esse escambo cultural que sempre nos constitui, esse dom de iludir pela escrita ou pela pintura do próprio corpo, sem que isso deva implicar a destruição da alteridade. Nem toda passagem de uma cultura a outra representa a morte da cultura de destino, há negociações mais ou menos nocivas, mais ou menos benéficas. Negociação é uma palavra cara a Freud e a Homi Bhabha, este como leitor daquele. Nem todo trânsito ou transe cultural precisa resultar em genocídio, ao contrário, os mais felizes preservam algo do génos, moral e biológico, do outro. Fecho parênteses.)

Todos devem se lembrar de um comentário profético da Carta de Caminha. Em primeira visita às terras futuramente brasílicas, o missivista do Rei registra que os índios parecem mais amigos dos portugueses que o inverso. Parecem, não o são necessariamente, como os próprios lusos também pareciam ser (porém bem menos), sem o ser de fato. Uma pintura de confraternização, anunciadora do genocídio futuro. Primeiras conversações antes da guerra. Quadro idílico onde se dará a primeira missa e, pouco mais tarde, o primeiro índio abatido também, como lembra Gilberto Gil.

Na narrativa de Alencar, tudo isso vai ser selado com um pacto de sangue, dúplo cálice, de amizade e amor, como visto:

 

Poti cantava:

- Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amizade de Coatiabo e Poti.

Acudiu Iracema:

- Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é Iracema junto a seu esposo.

Os guerreiros disseram:

- Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatiabo entre o irmão e a esposa: seus ramos abraçam os ramos do ubiratã e sua sombra protege a relva humilde (ALENCAR, s. d., p. 104).

 

Deixo falar por si, em sua letra superficialmente cifrada com metáforas biológicas, esses dois esponsais, o da cobra e o da ostra. Trata-se de uma escrita criptográfica, como bem assinalou Silviano Santiago.

Para mostrar que a questão da literatura é a questão do génos por excelência (do gênero e da genealogia), reverbero a fala de José de Alencar, que assume no pórtico da obra sua função de pai zeloso. Numa carta-prefácio ao Dr. Hélio Jaguaribe, Alencar se dirige a seu leitor preferencial. Esta expressão é minha (leitor preferencial), mas por todos os motivos foi sugerida pelo Autor-Pai de Iracema. O fato de qualificar o Dr. Jaguaribe assim vem do motivo mesmo que levou o Autor a fazer acompanhar um exemplar do livro com a referida carta. Hélio Jaguaribe é o cearense não-migrado, ao contrário de Alencaro qual assumiu seu exílio na Corte. A expressão “terra do exílio” surge na primeira página da narrativa, e já a dedicatória consignava: “À Terra Natal/ um filho ausente”. Aos cuidados desse filho não-pródigo (Jaguaribe), tanto mais legítimo porque desenvolve sua prole nos campos onde nasceu, é preciso enviar o filho, ou a filha que também se espera legítima (Iracema, o livro e o personagem), embora tenha sido concebida por um filho quase bastardo (o escritor Alencar). Este lastima não ter ilustrado o nome dos antepassados na terra natal, apostando quem sabe uma compensação dessa falha com um duplo sucesso, no Rio de Janeiro e no Ceará.

 

O livro é cearense. [...]

Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.

Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos estranho, esquecido talvez dos poucos amigos e só lembrado pela incessante desafeição, qual sorte será a do livro?

Que lhe falte hospitalidade, não há a temer. [...] Receio, sim, que o livro seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos meus (ALENCAR, s. d., p. 10).

 

Ou seja, torna-se indispensável a legitimação por parte de um autêntico nativo cearense (Dr. Jaguaribe) da filha (Iracema) de um outro cearense (quase) espúrio, ou pelo menos suspeito (Alencar). Toda a complexidade vem de um Autor “civilizado” que se crê capaz de ter engendrado um legítimo e “selvagem” cearense. Essa questão da genealogia se espraia em diversos planos, destaco três deles: 1- o plano da legitimidade de uma literatura indianista, e portanto, verdadeiramente nacional, feita por um leitor de Chateaubriand e Walter Scott; 2- a legitimidade também de uma prosa brasileira, resultante do cruzamento entre o tupi e o português nacional; 3- a legitimidade, enfim, de um escritor romântico que sonha com um poema épico nativo, quer dizer, sem o vezo postiço do lusitanismo clássico - um escritor que se sabe votado ao fracasso na poesia e portanto faz em prosa o que não dera certo em versos, como ele mesmo confessa.

Seria matéria de um longo estudo ver como essas genealogias literárias, culturais e raciais, se encontram entremalhadas na ficção alencarina, constituindo uma verdadeira trama performativa. Isso não somente em Iracema, mas na tecelagem geral dos textos assinados “Alencar”, como dado inventivo da Obra.. É do lugar de uma impossível literatura brasileira que fala o Autor de Ubirajara; impossível se a imaginamos pura, isenta de contaminações, tal como sonham os chauvinismos nacionalistas.

A literatura brasileira, se ela existe - e eu a defendo não enquanto natureza ou essência, mas enquanto prática singular de intervenção estético-cultural -, só pode ser um híbrido. O resultado complexo de inúmeras formas de enxertos, cruzamentos, desenraizamentos, implantes, anacronismos e antecipações, parasitagens, enfim, de inúmeras traduções indecidivelmente naturais e culturais. Sem fronteira explícita, definitiva, exclusiva, nossa literatura, ainda neste final de século, é a floração de uma epopéia fracassada em versos, mais bem sucedida em prosa, heterogênea e heteróclita. Aberrante, se dermos a essa expressão um caráter icônico: o berro sussurrado do massacre do outro insubsumível à saga ocidental. O errante sobrevivente da dor, Moacir. Somos o signo ambivalente de uma degeneração, de um raquitismo inviável, e, por outro lado, de um revigoramento bastante viável da cultura ocidental. Um suplemento que, como lembram Haroldo de Campos e Silviano Santiago, pode ir mais longe que o original. Iracema diz o que Atala de Chateaubriand não pôde dizer, assim como O Primo Basílio diz um pouco mais que Madame Bovary. Desde logo por ser outro o contexto e conseqüentemente outra a germinação.

No posfácio, que é uma segunda carta a Hélio Jaguaribe, retorna a necessidade de legitimação, por parte de uma “testemunha de meu trabalho”, dos raros a respirar as “auras cearenses”. Cito o posfácio:

 

Este livro é, pois, um ensaio ou antes mostra [“experiência em prosa”, dissera mais acima]. Verá realizadas nele minhas idéias a respeito da literatura nacional; e achará aí poesia inteiramente brasileira, haurida na língua dos selvagens. A etimologia dos nomes de diversas localidades e certos modos de dizer, tirados da composição das palavras, são de cunho origina (ALENCAR, s. d., p. 145-146, grifos meus).

 

Mais de um especialista assinalou a imprecisão e degenerescência do tupi de Alencar. O idioma alencarino se faz autenticamente brasileiro, por meio de uma dupla traição: não é nem o português castiço, que rejeita, nem jamais será o tupi autêntico, com que sonha. Fino inventor de etimologias, tal Borges o será em nosso século, a Alencar pouco interessa o etymon, a origem pura do nome, mas sim uma fonte desde já contaminada pelos falseamentos da operação tradutória.

Ler, escrever é traduzir traindo ao transcriar os signos de uma cultura na outra, é engendrar um mestiço ali onde se desejaria um filho sem mácula. O híbrido nada mais é que uma rasura no tecido cultural. Como Iracema, abandonando a casa do pai para viver com o esposo na terra do exílio, com o risco na própria pele. A escrita anagramática de Alencar revela para seu leitor de hoje um segredo no momento mesmo em que se cala.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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